Confronto de realidades. Minha experiência pessoal no Canadá nostresCheguei ao Canadá em 2002 para me casar e na semana passada celebramos 9 anos de casados. Quando cheguei meu inglês era horrível e hoje é aceitável e entendível. Logo na primeira semana no Canadá me registrei para as classes de inglês para newcomers (recém-chegados). Estudei até um dia antes do meu filho nascer. Quando meu Brian estava com 18 meses voltei a estudar no LINC – que também é para imigrantes mas com uma creche onde eu deixava meu filho enquanto estudava. Eu me sentia muito isolada, vivo em Mississauga e aqui não há muitos brasileiros e meu marido é Português. Senti a falta do nosso jeito de falar, de nossa cultura, mas continuei me preparando para me integrar na sociedade canadense. Depois de quase dois anos estudando inglês percebi que esses cursos para imigrantes recém-chegados já não atendiam às minhas necessidades.

Procurei por lugares onde haviam cursos mais avançados. Encontrei um de leitura e escrita avançadas em uma escola para educação de adultos na Elm Drive in Mississauga. Foi a melhor coisa que fiz, a professora deixava bem claro que o papel dela era nos ensinar a escrever em inglês e não ser nossa amiguinha, ela era severa, cobrava bastante e dava muitos exercícios para serem feitos em casa. Gostei muito daquele excesso de disciplina pois passei a me dedicar mais, não queria tirar notas baixas nem ter a atenção chamada por não fazer os exercícios. Quando terminei esse curso de três meses não estava certa ainda se estava apta a frequentar uma “college”. Estava pensando em trabalhar nos serviços sociais e ajudar outras pessoas como eu a se adaptarem a este país. Nessa mesma escola havia um programa de créditos para estudantes maduros que não terminaram a escola secundária e decidi frequentar um de inglês referente a grade 12 que é do ultimo ano escolar. Me matriculei e paguei para ver se eu conseguia me sair bem, se o resultado fosse positivo eu ia tentar entra em uma “college”. Adorei o curso, os colegas, e a professora. A grade 12 não tem gramática é mais sobre sua capacidade de analisar e colocar no papel suas idéias. Lá li meu primeiro livro em inglês “The DaVinci Code.” usava sempre um dicionário para procurar as palavras que apareciam muito e que eu não sabia o significado, o resto eu pegava no sentido geral da sentença. Adorei o livro e fiz um trabalho de apresentação e de interpretação muito rico em detalhes o que me rendeu uma nota excelente. No fim do curso que também foi de 3 meses constatei que eu podia frequentar uma “college.”

No fim de 2006 me registrei no OCAS – que é um orgão onde você manda seus documentos e diz em quais “colleges” você quer se registrar. Eles se encarregam de enviar todos os seus documentos. Eu mandei meu diploma do curso de direito feito no Brasil e traduzido por um tradutor oficial da ATIO, eu tinha que provar que terminei a escola secundária e mandei junto o histórico oficial do curso de inglês da grade 12. Eu já havia me registrado no OSAP, que é o programa canadense parecido com o de crédito educativo que existia no Brasil. Através desse programa recebi ajuda financeira para pagar a “college,” livros, transporte e alimentação enquanto estudava. Também já havia escolhido a Sheridan College in Oakville como o lugar que eu queria estudar. A “college” me aceitou como estudante e não me pediu nenhum TOFFEL ou outro teste de inglês, aquele histórico oficial da grade 12 me livrou desta parte.

O curso foi bastante pesado mas aquela pressão e meu desejo de ter sucesso me fez esquecer a isolação em que me encontrava. Eram tantos trabalhos, tantos testes e tantos teatros que fizemos que perdi a conta de quantos foram. Quanto mais escrevia mais o meu inglês escrito melhorava e em 2008 me formei com honras. Fiquei tão feliz, não podia acreditar que tinha conseguido terminar uma “college” no Canadá em uma língua que é um desafio para mim. Consegui meu primeiro emprego do meu estágio, sou vista pela “college” como uma aluna de sucesso e até hoje sou convidada uma vez por ano a dar palestra para outros estudantes.

O que mais gostei é que é tudo tão organizado que você sabe exatamente o que eles querem de você, a informação é toda escrita o que lhe permite consultar suas anotações. Aprendi sobre ética nos serviços sociais, de que não podemos aceitar presentes. Aprendi técnicas de aconselhamento e também o que eu não devia fazer. Trabalhando no campo social eu não podia julgar as pessoas, dar minha opinião sobre o que devem fazer ou não fazer. Aprendi que minha função é dar informação para ajudar uma pessoa a tomar uma decisão e não decidir por ela, aprendi que devia respeitar os clientes, ser gentil e principalmente me colocar no lugar deles antes de negar ajuda. Sai preparada para colocar tudo isso em prática até o dia em entrei no mercado de trabalho e vi que a teoria não era colocada em prática e eu passei a confrontar outras pessoas com a minha atitude de fazer valer tudo que havia aprendido. Essa é uma outra história que vou contar depois.

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